O papel. Qual papel? O papel.

O ano 2015 foi devastador para a indústria britânica dos meios de comunicação, com as receitas com publicidade em papel a cair 112 milhões de libras (144 milhões de euros) e o The Independent não ficou à margem destes números. O diário britânico encerra no próximo mês a venda em formato papel. A última edição do jornal que celebra em 2016 trinta anos, será publicada ao que tudo indica a 26 de março.

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Propriedade do russo Evgeny Lebedev, o The Independent irá juntar-se a uma cada vez maior lista de jornais com edição impressa, que passam a adoptar a estratégia digital-only. “A indústria editorial está a mudar e são os leitores que protagonizam essa mudança. Eles mostram-nos que o futuro é digital.” anunciou recentemente o dono da cadeia de media que para além do The Independent detém também o canal de tv London Live e o The Evening Standard. Este último – um projecto rentável – tornou-se no primeiro jornal de grande circulação na Grã-Bretanha a ser distribuído gratuitamente. Com uma circulação de 600.000 cópias, está muito acima das cerca de 58.000 que o The Independent coloca actualmente no mercado.

«A indústria editorial está a mudar e são os leitores que protagonizam essa mudança. Eles mostram-nos que o futuro é digital.»

O facto de ser tratar de um produto gratuito permite aumentar a audiência, rentabilizando ganhos através do investimento das marcas em publicidade. Com as devidas diferenças, este é um modelo de negócio idêntico ao dos meios digitais, onde o número de consumidores de conteúdo noticioso tem vindo a aumentar exponencialmente.

Mas serão os banners, pre rolls, MRECs, wall papers e todos os inúmeros formatos actuais, suficientes para gerar receita, garantindo em simultâneo uma informação independente e de qualidade? Esta é uma discussão recorrente quando falamos em jornalismo digital, em que de um lado se posicionam aqueles que defendem a total gratuitidade dos conteúdos digitais e do outro os que afirmam que tal como no papel também no digital os conteúdos devem ser pagos. De acordo com a votação levada a cabo pela plataforma digital e think thank Contraditório, 67% dos participantes dizem que os leitores não devem pagar para ler noticias online. Esta é também a opinião de António Granado, que a convite deste site participou numa longa e interessante batalha de argumentos com Henrique Monteiro, defensor do Sim.

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No means no.

Enquanto leitor e também como investidor em publicidade digital sou contra o pagamento de conteúdos em jornais online. Não é possível cobrar por conteúdos quando estes não são suficientemente valorizados por aqueles que estão disponíveis para pagar, ainda mais quando o mercado oferece actualmente inúmeros conteúdos noticiosos gratuitos de enorme qualidade (principalmente fora de Portugal). E isto serve que para conteúdos generalistas, como para outros de caracter mais especializado ou de nicho, onde a tentação à cobrança poderá ser maior, mas onde há também uma maior obrigatoriedade de proficiência. Lebedev percebeu justamente isto quando acrescenta, “a nossa decisão preserva a marca Independent e permite-nos continuar a investir em conteúdo editorial de alta qualidade que atrai mais e mais leitores para nossas plataformas digitais”. Segundo os editores, o site do jornal já tem mais de 58 milhões de leitores por mês e dá lucro, prevendo-se que a receita da edição online cresça 50% este ano.

O The Independent está a fazer o caminho certo ao apostar em oferecer o mesmo jornalismo de qualidade sem limitações, com conteúdos diferenciadores e originados no ambiente digital, ao invés de uma mera adaptação do offline para o online, que muitas vezes acontece. Só acrescentando valor online é que os jornais poderão ambicionar um dia pedir aos seus leitores que paguem para navegar nos seus websites, seja em formato de subscrição mensal, numa lógica de freemium, ou outras. Mas mesmo chegado esse dia, tenho muitas duvidas de que venha a ser uma estratégia acertada. A internet encerra em si um conceito de universalidade, faz parte da chamada “gift economy” onde os bens e serviços são por norma trocados de forma gratuita, com base na expectativa de reciprocidade imediata ou futura. É neste sistema dinâmico que os jornais online também existem e a percepção deste paradigma pode vir a ditar a continuidade ou declínio dos títulos que hoje (e por quanto tempo mais?) ainda podemos ler em papel.

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Sim, no futuro ainda há jornais em papel.

 

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