Video saved the radio star

“Como se chama mesmo o Mézico Zérlim da TSF?” perguntava em 2009, Ricardo Santos Pinto do blogue Aventar. A pergunta é legítima e era uma incerteza da qual também eu partilhava. A resposta foi colocada inadvertidamente na página da TSF no Facebook, quando partilhou um post com apresentação de alguns dos seus colaboradores. Foi a partir daí, que muitos ouvintes, como eu,  se aperceberam que o nome correcto do sonoplasta – na minha versão Mézicle Zeline – é na realidade Mésicles Hélin.

aventar
Pelo menos a minha versão sempre estava mais perto do original, que a do Ricardo.

Deste trivial exemplo se conclui que, uma das consequências da presença das estações de rádio na web foi aproximar ainda mais o ouvinte, de quem comunica através do microfone. Ao mesmo tempo, eliminou um pouco da mística à volta da voz e da figura, quase sempre distanciada da realidade, que a nossa imaginação fértil nos levava a criar. Quem nunca fantasiou quem estaria por trás da voz sensual de Mónica Mendes, da Antena 3, não foi adolescente nos anos 90.

De lá para cá, a rádio mudou. Modernizou-se, actualizou-se aos novos tempos e por isso hoje é também vídeo, texto e imagem. Alguns exemplos muito claros deste conceito de Rádio interactiva são formatos como Now Playing @6Music ou World Have Your Say, ambos da BBC Radio num mix entre rádio, vídeo e social media; o programa Geoff Lloyd’s Hometime Show da Absolute Radio com uma forma quase hipnótica de captar e interagir com a audiência; o conceito de responsabilidade social Communities da norte-americana KFI AM 640 ou mesmo a plataforma V+ da Rádio Renascença, um exemplo nacional muito bem conseguido, entre muitos outros.
Também recentemente o mundo foi contagiado por um fenómeno de audiências em Rádio, que dá pelo nome de Serial, um podcast policial ao género do saudoso Inspector Varatojo, que se baseia na história verídica de um homem condenado a uma sentença de prisão perpétua pelo alegado homicido da sua ex-namorada. Serial foi descarregado por 76 milhões de ouvintes desde que foi lançado, em Outubro de 2014, e é uma nova abordagem que dá aos até agora relativamente depreciados podcasts, o merecido crédito e destaque.

serial
Milhões de pessoas ficaram viciadas na série Serial

Do trio de conteúdos: informação, opinião e música, é neste último que começam a surgir as principais interrogações. Isto porque as linhas onde “rádio” e “ouvir música” se encontram, ficaram mais turvas, tornando difícil distinguir o que é o quê. Antes da adaptação ao digital, era mais fácil diferenciar o conceito de rádio, de alguém que apenas ouve música, por exemplo na sua aparelhagem. Agora, com a rádio interactiva, o podcasting, os serviços de subscrição como o Spotify, e as plataformas de web e mobile streaming, assistimos à massificação do “cloud radio”, onde a Rádio se torna mais portátil e desdobrada em múltiplas plataformas, do que nunca. Este e outros conceitos estão muitíssimo bem expostos num estudo do Obercom, da autoria do Prof. Sandro Mendonça, que analisa as transformações, tendências e prospectivas da rádio, num processo que denominaram de Radiomorphosis. Este contributo disponibilizado pelo Observatório de Comunicação é acima de tudo interessante do ponto de vista em que elenca as últimas tendências no panorama da rádio (música + palavra) nos new media e explora este novo paradigma de comunicação em rede, do qual todos fazemos parte e, inclusivamente, influenciamos.

«A rádio será sobretudo um estilo de comunicação, não precisando já de ondas hertzianas para cumprir o seu papel.» in Radiomorphosis

Funcionando desde cedo como uma espécie de laboratório para formação de futuros comunicadores, que muitas vezes seguem a sua carreira na televisão, as estações nacionais (e internacionais) mantêm ainda hoje esta tendência, que foi acelerada pela exposição ganha em grande parte através da presença nas redes sociais e demais canais digitais.
Os programas da manhã, líderes de audiência, são disso o melhor exemplo, já que através dos conteúdos áudio e vídeo que disponibilizam online, conseguem chegar a mais públicos e a públicos mais diferenciados, do que no tempo em que estavam limitados a uma emissão em directo e delimitada no tempo. A possibilidade de partilha nas redes sociais, de um episódio da “Mixórdia de Temáticas” da Rádio Comercial, ao mesmo tempo que contribui para o aumento da mediatização do programa e dos seus intervenientes, multiplica também o número de contactos que são expostos à mensagem publicitária agregada a cada episódio. Se tivermos em conta que esta disseminação não tem quaisquer custos, ao contrário por exemplo de uma inserção de publicidade num canal de televisão ou imprensa, então ainda mais interessante se torna a questão.

mixordia de temáticas
O canal de Youtube da Mixórdia de Temáticas totaliza já quase meio milhão de visualizações.

Quer para meios, como para anunciantes isto é ouro sobre azul, já que o product placement divulgado em antena, em direto, é mais tarde reproduzido tantas vezes quantas as que este conteúdo for visionado. Para além disso, todos estes conteúdos são disponibilizados nos canais online das rádios, o que permite oferecer publicidade adicional nos diferentes formatos multimédia. De acordo com o estudo “The Online Multiplier − How radio advertising boosts brand browsing online” do The Radio Advertising Bureau, o uso criativo de publicidade na rádio pode aumentar consideravelmente o awareness de uma dada marca e influenciar até o comportamento online. O estudo refere que a exposição à publicidade na rádio aumenta, em média, 52% a procura online da marca publicitada. Atualmente, a estratégia comercial passa inclusive por publicidade gravada pelos próprios locutores e transmitida no período de emissão dos programas. Uma forma inteligente de “camufular” a mensagem e captar a atenção, embora também mais dispendiosa.

Mas à parte de todas as actualizações técnicas e tecnológicas será que a Rádio mudou assim tanto? Tal como a imprensa ou o cinema que viram as sua continuidade condenada pelo aparecimento de novos meios, também a Rádio sempre sentiu esta suposta ameaça a que soube resistir de forma resiliente – o cinema em casa iria presumidamente acabar com as salas de cinema e, na realidade, foi a Blockbuster quem acabou por ter um final trágico. Ao contrário do que previam os Buggles no seu hit “Video Kill The Radio Star”, é efectivamente o vídeo que acaba, de certa forma, por ser um dos salvadores da Rádio do século XXI.

buggles
“Ok, estávamos enganados. Mas continuamos a ter imenso estilo.”

A Rádio adaptou-se à nova era digital mas na sua essência não mudou. Continua a servir o propósito de comunicar e entreter, e sempre de forma gratuita. Curiosamente, isso transforma-a numa forma primitiva de rede social, na medida em que nos permite conectar com outras pessoas e ideias, numa comunidade mais ou menos abrangente e, quase sempre, sem barreiras.

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